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A criação moderna na contribuição de adultos narcísicos infantilizados

Vamos observar a nossa volta as crianças do séc. XXI, comparadas a criação vinda das famílias tradicionais em décadas anteriores aos anos 80. Não podemos de modo algum ignorar os modelos cultural, social e econômico de cada família, mas de maneira geral refiro-me à classe média – alta, onde é nítida a diferenciação dos padrões educacionais na criação dos seus eternos filhos que não crescem, ou melhor, que quase sempre acabam por se transformar em adultos infantilizados.

Na geração passada, as famílias nucleares, seja pai e mãe com filhos, prezavam por uma educação mais rígida, como castigos e velhas palmadas. O pai sempre provedor trabalhando fora e a mãe em casa cuidando dos afazeres e criação dos filhos. Ao passar dos tempos isso veio sendo mudado com a conquista profissional da figura feminina retirando-se do lar e assumindo o mercado profissional. Mas e os filhos? Esses agora são cuidados  em comum do casal, conforme foram assumindo seus ‘estilos parentais’ da modernidade. Isso significa que, a nova criação ao contrário dos castigos, dos diversos ‘Nãos’ e ‘repreensões’, os pais da atualidade passaram mais a apoiar do que contrariar seus filhos,  eles mais elogiam do que repreendem.

Dizemos que esses sistemas familiares são formados por subsistemas, ou seja, marido/esposa, genitores/filhos, avós/netos,  local em que é frequente a atitude de superproteção por parte dos pais e avós. Há pensamentos controversos na atual dinâmica familiar:  ao pensarem que os elogiando, aceitando e acatando tudo destes estão incentivando e reforçando positivamente o comportamento dos filhos, ao contrário, podem estar na verdade  internalizando nesta criança/adolescente e futuro adulto, que ele é e sempre será o melhor em tudo, é superior aos demais. Isto também pode se configurar uma família sem regras e limites, ou  seja, formam-se padrões que passam a instituírem  e se manterem em ‘conto de fadas’. Sabemos que ‘conto de fadas’ não existe, e principalmente que o mundo lá fora está exigindo sempre mais desses jovens/adultos, seja nos estudos, no meio sócio-cultural e na vida profissional.

birra

A data em que você nasceu é imutável, mas o seu jeito de pensar, sentir e agir você pode mudar.” Gustavo Boog.

Com base nos estudos e conceitos do Psicólogo S. Minuchin, 1988, “esses subsistemas são separados por fronteiras e constituídos por regras e limites próprios que regulam as trocas e os intercâmbios estabelecidos entre eles”… A falta ou o afrouxamento exacerbado dessas fronteiras e desses limites pode caracterizar a patologia em um sistema familiar.

Podemos observar dois tipos de comportamento dos pais dentro de um sistema: digamos que na falta de limites somada à despreocupação destes, podem contribuir para a formação de filhos manipuladores e até com traços psicopatas, o que podemos chamar de ‘distúrbios da personalidade dissocial’. Eles não conseguem se submeter a regras sociais e pouco se importam com o sentimento das outras pessoas, tornam-se egocêntricos e agressivos dentro e fora de casa.  O segundo comportamento que irá influenciar é aquele que mesmo sem regras e limites, ao contrário do descaso os pais superprotegem, caracteriza-se um sistema auto-confiante, onde nunca se erra e consequentemente esses filhos acabam por roubar a autoridade dos pais, caracterizando também o caminho de um sistema patológico. Quando falamos em roubar a autoridade dos pais, vemos que há uma inversão de funções muito comum na modernidade, o que acaba certamente contribuindo para o estilo narcísico desses jovens, emaranhados na grande dependência daquele sistema, sem estarem devidamente preparados para encarar os desafios da sua atualidade.

Ser narcisista pode ser a moda do século XXI. Comparados a história do espelho de Narciso que passava horas adorando a si mesmo, esses jovens estão cada vez mais cultuando a si mesmos. Não respeitam os mais velhos e estão sempre certos em tudo, formam a turminha do “me acho”, se acham espertos, inteligentes, pegadores, os mais competentes no trabalho e merecedores de ter tudo do bom e do melhor, se superando aos outros, entrando no velho padrão de competitividade. Crescem achando-se reis e rainhas, pois dentro de casa são tratados assim, só não percebem que lá fora, a sociedade não os verão com esses olhos. Eles viram adultos com uma expectativa de superioridade, mostra uma pesquisa dos Estados Unidos onde foram acompanhados jovens da universidade de San Diego (2006). Eles possuem o ego inflado e uma exagerada confiança que foi instituída na infância, onde vem quase sempre acompanhado de uma grande insensibilidade e ao mesmo tempo dependência familiar. Isto mostra ser resultado dos pais que passaram grande parte da vida mimando muito sua prole. Sabemos que qualquer atitude deve-se ter limites, dar amor e afeto não é necessariamente mimar e somente elogiar. Eles também precisam aprender o poder da palavra ‘não’, precisam dar valor ao dinheiro, saber o quanto precisam cair e se levantar para aos poucos tornarem-se bons em alguma tarefa na vida, conquistando seu espaço sem precisar passar por cima de ninguém. Não adianta os pais pensarem que dão a melhor educação, pagam o melhor colégio, o melhor curso de inglês, mas não os deixarem se virar sozinhos, tomarem suas atitudes e decisões pensadas, passar o peso da responsabilidade a eles.

narcisoAo contrario, passaram a criar esses filhos de baixo de suas asas, os protegendo de tudo, decidindo por eles até a fase adulta como se fossem ainda crianças irresponsáveis. Esses filhos da modernidade já vem com o dever da conquista emanada dos pais de apenas ser vencedor na vida a qualquer custo, mas não estão nenhum pouco adaptados a assumir grandes responsabilidades. Fica visível que o avesso desta criação recairá negativamente sobre eles. Ao longo da vida adulta, essa imagem distorcida, narcísica de si mesmo acaba por prejudicar sua personalidade e capacidade de integração. Movimento muito comum que se pode observar nos dias de hoje, é a instabilidade do jovem em se manter em emprego. Diferentemente também de gerações passadas, onde jovens na idade dos 18 a 20 anos casavam-se e constituíam família, hoje se casam após os 30 anos de idade. Podemos pensar em crescimento e amadurecimento tardio? Pode tantas mudanças nesta criação ter contribuído para uma geração retroativa? Pensemos que o depósito de muita auto-estima nos filhos por parte desses pais, que também diminuíram a quantidade de filhos comparados a décadas passadas, acabou por ‘cultuarem’ demais sua pequena família. Não se pode criticar para não frustrar, não pode as palmadas porque caracteriza agressão física e não educação, então cada vez mais cria-se filhos com dificuldades para lidar com o mundo. Ao chegarem nessa vida adulta eles acabam por perceber que não dão conta de suas próprias vidas e vão deparar frente a frente com a realidade fora do sistema em que foram criados. Quando algo é exigido deles, apoderam-se de sentimentos de frustração, incapacidade e insatisfação, desenvolvem pânico, medo e podem desencadear sintomas de depressão.

Esses ‘estilos parentais’ caracterizam pais pouco exigentes e filhos mais dependentes e infantilizados. Aumenta-se a procura por terapias, aconselhamentos de pais e filhos, como se tivessem que apreender a lidar com eles, mas existe algum manual?  Fica a dica de uma cartilha antiga, não a ser seguida à risca, mas observada. Mudaram-se os modelos de criação devido as crenças religiosas, à evolução tecnológica do mundo moderno que reflete diretamente na instância cultural e exige que as famílias sejam adaptadas. Contudo podemos pensar que nada está perdido, acreditamos que todo sistema familiar é sim passível de mudanças. Com vontade e preocupação com o futuro da prole podem manifestar grande potencial para uma boa e saudável criação, afinal ter consciência do seu próprio  modo e atitudes de educar, é também contribuir e estimular positivamente na formação e no desenvolvimento psíquico de seus filhos, que passarão a mesma criação e aprendizados adiante.

Cíntia Calegari Zulli é Psicóloga Clínica CRP 08/21358. Contato: cintia@psike.com.br

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