Como lidar com parceiros egoístas?

Como lidar com parceiros egoístas?

Muitas vezes as pessoas trazem uma bagagem muito pesada de sua infância, tanto positiva, quanto negativa e, esses sentimentos podem ser responsáveis por atitudes de egoísmo e gerar conflitos de relacionamento

O mundo moderno traz muitas facilidades para o nosso dia a dia, e isso não é novidade e todos concordam com essa afirmação. As coisas tornaram-se muito acessíveis e, até mesmo aqueles que têm dificuldades em encontrar tempo para realizar a simples tarefa de ir ao supermercado, por exemplo, já teve uma solução para o seu problema. Entretanto, com tantas possibilidades nas palmas da mão, algumas coisas acabam ficando para trás. Muitas pessoas se tornam cada vez mais individualistas, o que certamente não é nada tão grave assim. O grande problema, no entanto, é quando os indíviduos acabam se sentindo tão autossuficientes, e se tornam egoístas.

As dificuldades acabam por aparecer, especialmente para aqueles que estão em um relacionamento. Quando um dos dois é egoísta, não demora muito para que as brigas e os problemas comecem a surgir. Por outro lado, a questão que vem à tona é: como identificar o egoísmo no parceiro?

De acordo com a psicóloga Melissa Piske Indalecio, especialista em Psicologia Analítica, uma relação a dois envolve muitos aspectos psicológicos e o principal está relacionado às projeções que cada um ideintifica no outro. O inconsciente produz efeitos quase nostálgicos quando começa a trabalhar buscando a integração total do ser a partir do outro. “É quase como o velho jargão que fala: ‘é a tampa da minha panela’ – ou seja, nesse relacionamento, o indivíduo deseja integrar as suas partes faltantes. Ao amar no parceiro as próprias características, como acontece no fenômeno psicológico chamado de projeção, o indivíduo busca ‘o matrimonio interior’, que nada mais é que a sua integração através do outro, os próprios conteúdos inconscientes”, explica.
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Melissa comenta que é possível vislumbrar desta forma o egoísmo que existe nesse tipo de relacionamento, apesar da inconsciência destes processos. A paixão seria, principalmente, a vivência da projeção, o que significa uma adoração por si, pelas próprias imagens nos aspectos do parceiro. “Este tipo de relação, pela sua própria natureza, está fadada a se degenerar para o egoísmo, pois ele não é um amor dirigido a outro ser humano, mas sim pelas partes faltantes de si mesmo. Quando isso ocorre, tende a ser orientado às próprias projeções, expectativas e às fantasias. Na verdade, este amor não é um sentimento relacionando a outra pessoa, é por ele (a) mesmo (a)”, revela.

Nesse caso, o desenvolvimento pessoal de cada um pode realizar mudanças, mas mais do que lidar com o egoísmo do outro, é importante reconhecer em si o que alimenta este tipo de relação. Lidar com a situação nem sempre é fácil, pois existem muitos conteúdos inconscientes travando guerras internas em cada um dos indivíduos enquanto casal. “Uma pessoa terapeutizada, é capaz de desmistificar o casamento e observar a integralidade deste relacionamento, vislumbrando esse parceiro como um ser humano cheio de virtudes e igualmente cheio de defeitos. Ao humanizar esta relação, naturalmente, o egoísmo vai se esvaindo e percebe-se que a integralidade individual esta sendo respeitada. E partindo deste ponto, o parceiro não será mais visto como a tal ‘tampa da panela’, mas sim como outra ‘panela inteira’”, ressalta a psicóloga Melissa Piske Indalecio.

Ela comenta que é possível identificar um parceiro egoísta quando, ao invés deste caminho ser trilhado lado a lado, na primeira negação de desejo, observa-se surgir aspectos sombrios, como a vontade de combatividade, competitividade, aniquilamento emocional, desconsideração pelo desejo do outro, pois, este outro não é visto como um ser integral, mas como uma relação simbiótica de extensão de si mesmo. Partindo desta premissa, a relação tende a cada dia tornar-se mais caótica na medida em que estes aspectos negativos são pouco conhecidos e reconhecidos em você e no outro.

Somente o fato de exigir que a outra pessoa mude, é possível demonstrar um desejo de impor suas próprias vontades. “Não necessariamente significa apenas isso, mudanças de atitudes implicam em muitas variáveis, desde uma maturação do indivíduo quanto ao comprometimento da vida a dois, até o simples capricho de ser atendido em suas necessidades e vontades.

Quando adentramos na questão do egoísmo da relação, esta cobrança começa a acontecer quando o encantamento começa a se desfazer e a realidade começa a dar indícios de estar aparente, isto é, os aspectos simbólicos que um dos parceiros tinha em relação ao outro começa a desmoronar e costuma-se ouvir a frase: ‘Você não parece mais a pessoa com quem me casei’. Sim, esta pessoa é exatamente com quem casou, no entanto, este desvendamento pode ser muito produtivo, pois começa a distanciar o outro de uma imagem idealizada e traze-lo para a realidade. Sendo assim, se este processo não for bem absorvido, pode começar a desencadear processos de estranhamento e a não aceitação do outro, o que leva a condutas, conscientes e inconscientes que boicotam o relacionamento e podem levar ao aniquilamento de qualquer sentimento positivo e genuíno que pudesse existir entre as partes”, esclarece Melissa.

A psicóloga também menciona que o egoísmo pode ser resultado de uma infância problemática. A escolha do cônjuge está intimamente ligada à relação que os indivíduos possuem com os pais. Todos nós nascemos com expectativas de nossos pais, normalmente ligadas a experiências que eles mesmos desejariam ter vivido, mas não o fizeram, ou seja, intimamente ligados às frustrações deles. Existem conteúdos que são trazidos da infância, e a escolha do parceiro pode ter relação com o referencial paterno e materno, podendo se tratar de uma tentativa frustrada de resgatar a imagem relacional que traz em sua fantasia sobre o relacionamento perfeito, usando como modelo positivo ou negativo a relação dos pais e, algumas vezes, da expectativa deles.

“Vamos citar como exemplo a questão dos atritos dentro do casamento, que podem ser resultado do fracasso desta expectativa paterna, ou de suas próprias fantasias. O homem pode perceber que a mulher não desempenhará o ‘papel mágico de mãe’, assim como a mulher pode descobrir que não está diante de alguém que será seu herói. Neste momento, ou o parceiro assume uma condição egoísta, ou torna isso a possibilidade para diferenciar e impulsionar positivamente a relação conjugal, será a postura do casal em relação aos desafios a serem superados e a capacidade de recriar as suas frustrações, que determinará um futuro próspero ou não. O parceiro pode ser um meio de sofrimento por não agir de acordo com a expectativa de um grande amor, e ao perceber que esta ferida se iniciou na relação com os pais, e que continua aberta, pode ser mais uma excelente oportunidade de superação”, exemplifica Melissa.

O egocentrismo, de acordo com a psicóloga, é denominado pelo comportamento voltado para si, pois não há uma capacidade de diferenciar-se dos outros. No entanto, percebemos esta classificação, mais comumente em crianças, fase em esta condição egocêntrica e a falta de maturidade para realização empática é mais comum e não patológica, já que faz parte do desenvolvimento humano. “Na fase adulta, existem os desdobramentos, o que percebe-se mais comumente são os transtornos de personalidades histriônicas, em que o indivíduo desenvolve uma dramatização excessiva nos mais diversos contextos e a necessidade de chamar a atenção para si. No entanto para não ficarmos aqui rotulando doenças e transtornos, podemos falar do que isso significa simbolicamente.

Para o egocêntrico, enfrentar a realidade é enfrentar o outro com todas as suas diferenças. O outro os coloca em xeque, faz com que se voltem para si e reflitam a respeito de suas verdades. Olhar o outro é abandonar nossa onipotência, é olhar para as fraquezas e limitações e os colocar à prova. Existe uma falha na formação de sua identidade que está diretamente ligada às suas primeiras relações com o mundo, as relações objetais, as relações com pai e mãe, relações responsáveis por sua formação, por sua capacidade de adaptação ou não à sociedade. Parece faltar a força necessária para enfrentar o mundo e suportar as adversidades sem se desintegrar, para interagir, sentir prazer e desprazer, lidar com os conflitos e poder crescer com eles”, esclarece.

Mas ao se deparar com um relacionamento assim, qual a melhor maneira de agir e resolver o problema? Melissa fala que a melhor solução é olhar para os próprios problemas e conflitos, tanto o indivíduo egoísta, que fatalmente encontrará indícios de seus atos, quanto o parceiro que utiliza da permissividade para retroalimentar essa relação que pode tomar proporções crescentes e tornar-se patológica. “Buscar ajuda pode ser um caminho para clarear os problemas que podem amplificar, resgatar e agregar sucesso ao relacionamento.

Conhecer-se profundamente requer coragem. Coragem para enfrentar um lado obscuro do qual muitos irão resistir e não poderão não aceitar. Observar nossas próprias dinâmicas conduz ao sucesso pessoal, familiar e no relacionamento a dois, mas é necessário um esforço para não achar culpados, além do seu próprio reflexo. Pois o ser humano possui uma tendência à resistência e quanto mais se resiste a algo, mais isso persiste. Pode melhorar muito com o auto conhecimento através da análise, ou psicoterapia, com ajuda de um profissional, seja psicólogo, analista ou psicanalista”, finaliza.

Observação: Matéria publicada na Revista Nova Familia

Melissa Piske Indalecio – Psicóloga Clínica Especialista – Psicologia Analítica – CRP 08/21206. Contato: melissa@psike.com.br.
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Psike

Psicologia Clinica

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